muitoconceito


Juliana,

Você não vai se lembrar de mim. Nós estudamos juntos na sétima série, em São Paulo - dessa época você deve se lembrar porque os meninos da sala, e algumas meninas (mas as meninas escondiam bem, porque esse negócio de sensibilidade feminina na verdade tem nome: dissimulação), chamavam você de Bozo. Era o cabelo. E você cuidava dele, mas no começo dos anos noventa o negócio era parecer uma caveira com pano de chão na cabeça, lembra? Mas eu acho melhor eu nem falar assim, com essa linguagem agressiva, senão vão achar que é despeito. Eu queria me lembrar do seu sobrenome, até pra achar você no Orkut e chamar você aqui para que você leia isso... Mas pena. E você não vai se lembrar de mim, pois naquela época eu era invisível. Na verdade era uma invisibilidade sazonal, porque eu reaparecia em vésperas de prova e quando das entregas de nota e boletins. E, sabe, eu escondia, mas tirava entre cinco e sete, e não mais que sete, em Desenho Geométrico - e em casa eu desenhava o professor Rolando numa forca ou com coisas enfiadas no cê-u. Mas isso era o de menos, uma vez que meia sala ficava pra recuperação.

Mas não é sobre isso que eu queria conversar com você, Juliana. Era sobre outra coisa. Era sobre dor. Eu sei que nem eu nem você somos criancinhas africanas morrendo de fome, afinal de contas, tanto eu como você sobrevivemos, de modo que não cabe a autocomiseração nem a comiseração mútua. Mas cabe dizer coisas, estar perto. E eu não estive perto de você. Nem tinha como, eu mesmo me remoía ali nos cantos, sem ter aqueles tênis de 3 kg cada pé, sem ter Mega Drive ou sequer um Phantom System ou coisa do tipo. Claro que a sua dor era muito pior que a minha: eu era invisível, você era visível demais. Mas eu também já tinha passado pelo que você passou. Foi antes, foi da primeira à terceira série (e sumiu milagrosamente na quarta). Os moleques e, disfarçadamente, as meninas me chamavam de “mulherzinha-só-falta-uma-sainha”. Teve até uma vez esses dois meninos que me pegaram no banheiro e ficaram passando a mão na minha bunda enquanto eu gritava e eles tentavam abafar. Aí apareceu um faxineiro e eles saíram correndo. Depois ele me perguntou o que havia acontecido e sentenciou que a culpa era minha porque eu não meti a mão na cara deles. Se minha praga deu certo, esse velho morreu com a boca cheia de formiga pouco depois. Se não, ele ficou faxineiro mesmo. Faxineiro de banheiro de escola de burguês. Bem feito. Talvez seja melhor assim.

As memórias do sofrimento são muitas. Maiores que as outras até, e imagino que talvez seja assim para você, né, Juliana? Eu podia te contar tudo e depois esperar uma resposta em que você me contasse aquilo que eu não sei. Às vezes não dava tempo de você sair correndo para chorar no banheiro, Juliana, eu me lembro. Por isso sei que você sofria. Quando se tem 12 anos e se chora em público é porque realmente todas as válvulas estouraram e a dor terrível arrebentou a gente por dentro. Acho que pra sempre, né? Chorar em público, acho que só em filme, porque aí é sensível, bonito. Choro com gosto faz sair meleca do nariz, faz a gente babar. E deixa a gente frágil, frágil, pronto para receber o golpe de misericórdia. E eles davam, Juliana? Claro que não, bem sabemos eu e você. O legal era ver a gente estrebuchando. E que a gente sobrevivesse. Eles davam tréguas, de propósito, pra gente achar que tinha acabado. Mas não acabava.

Sabe, Juliana, eu tenho umas fantasias. Às vezes eu penso que quando eu publicar esse romance que me falta apenas um final para acabar, e quando eu passar na Prova Mais Difícil do Mundo, eu vou a uma dessas reuniões de ex-alunos dizer pra todo mundo que eu sou romancista e diplomata. Tudo bem, eles vão ficar impressionados, mas adianta? Não. Eu me lembro de uma vez em que te defendi. Você estava penteando seus cabelos e o Artur chegou e disse “Aê, Bozão, mexendo no cabelão!”. Você chorou. Eu falei com ele depois (porque eu era medroso e tinha medo de apanhar - a única nota azul do Artur era em Educação Física). Disse para ele parar de te chamar de Bozo. Ele me perguntou por quê, e eu disse que era porque você não gostava. Sabe o que ele me respondeu? “E daí?” Pois é, Juliana: e daí que a gente sofre? E daí que a gente se dá bem depois, né? Eles se esqueceram da gente, com certeza, e a dor é só nossa.

Mas eu já disse: nós sobrevivemos. E por isso a gente tem um demais. A gente sabe bem o que significa ter cabelo liso, ser campeão de futebol, ter tênis e videogame porque a gente não tinha, e a pressão era a mesma. E mais, para saber o que é ter ou ser essas coisas, é só assistir a qualquer filme, ou melhor, a qualquer peça publicitária. Um cabelo ou um par de Reeboks são só passaportes para que uma pessoa seja como o resto. Agora, conhecer a dor, não. Conhecer a dor muda a gente lá dentro. Ter sido recusado, e, pior, ter sido exposto à selvageria da natureza obscura humana e ter sobrevivido a isso é experiência insubstituível. E sabe a vantagem? A gente sabe que dor acaba, passa ou fica irrelevante. E quando vem outra, a gente já sabe o que fazer. É porque quanto mais dói, mais se cresce, e quanto mais se cresce, mais se fica tranqüilo.

(continua)



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 23h32
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(continuação)

Estar no centro de um círculo de crianças em coral macabro, gritando “Bozo”, “mulherzinha” ou “gorda baleia, saco de areia” é como a véspera da morte. Você sabe disso, Juliana, eu não preciso explicar. Talvez você não sinta como véspera da morte, mas é, de modo mais genérico, um encurralamento, uma situação em que a fuga é para frente ou para dentro. E como a gente era mau aluno em Educação Física, a fuga acabava invariavelmente sendo para dentro. E lá dentro tinha muito mais do que lá fora. No meu quarto, por exemplo, tinha o farol de Alexandria. E na minha alma, fantasias. E na minha vida, bem mais tarde, claro, a certeza de que passa. E um senso de justiça imenso. E a possibilidade de descobrir depois que para ser amado é necessário muito menos que um Reebok ou os cabelos da Kate Moss. E a capacidade de amar desinteressadamente - tudo isso veio de brinde, se a gente parar com calma para olhar. Mesmo que haja uma camada de agressividade e defesa em volta da gente, a gente sabe que o amor está lá dentro, lá no fundo. Aliás, a gente tem fundo, o que eu duvido muito que o Artur (ou os meninos do Pio XII) tenham.

Eu sei, Juliana, que isso tudo não serve para muita coisa. Que a gente não arruma emprego com isso - que talvez a gente tenha empregos piores que aqueles coleguinhas ricos da escola, e provavelmente a gente tem. Que se a gente disser que tem isso para eles, a reação vai ser um “e daí” ou simplesmente a mais muda das incompreensões. Mas é aí que está: o que a gente tem não é para sair exibindo para todo mundo. É para a gente. E para aqueles que a gente ama. E para quando a gente encontrar uma criança espremida na parede poder bancar o super-herói, porque ser o torto e zoado pra gente não é “normal”, “fase”, “período do desenvolvimento piagetiano”, como disse a madre - que ela arda no inferno - para a minha, mãe, que sofreu junto, porque ela mesma passou pela mesma coisa. E depois de salvar uma criança assim é isso o que a gente faz: sofre junto, deixa chorar. Não vai adiantar dizer que isso passa - a criança vai descobrir sozinha. E vai ser bom para ela que a descoberta seja assim, ainda que, no futuro, como nós, ela sinta no aquecer das bochechas as lembranças do passado humilhante. Ela vai ser um de nós. Um que sobreviveu. E um que, se quiser, pode amar muito mais que os outros.

Juliana, eu espero não ter deixado você triste. Ou se você ficou, eu espero que misturada à tristeza esteja a certeza de uma vitória muda e sem medalhas que você, eu e mais tantos conquistamos.

Um beijo e boa vida pra você. Vai dar tudo certo. Sempre dá.

Hugo.



Escrito por Hugo Lorenzetti Neto às 23h32
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